EVANGELHO SEGUNDO SÃO MATEUS 1, 1-15
Os argumentos apresentados podem ser compreendidos de forma mais clara quando vistos em conjunto, pois todos convergem para a intenção teológica dos evangelistas e para o modo como a genealogia de Cristo é construída e interpretada.
O Evangelho foi escrito por São Mateus tendo como destinatário principal o povo judeu. Para esse público, seria desnecessário discorrer longamente sobre a natureza divina de Deus, já conhecida por eles; contudo, era essencial explicar o mistério da encarnação. Por isso, Mateus se dedica a narrar a geração de Cristo segundo a carne, iniciando seu Evangelho com a genealogia. Já São João escreve sobretudo para os gentios, que não possuíam clareza sobre a filiação divina de Cristo. Assim, João considera necessário demonstrar primeiro que existe um Filho de Deus que é Deus e, somente depois, que esse Filho assumiu a carne humana.
Ao empregar a expressão “Jesus Cristo”, o evangelista indica simultaneamente a dignidade real e sacerdotal do Senhor. O nome Jesus (Josué) remete àquele que, após Moisés, assumiu a liderança do povo de Israel, enquanto Aarão, ungido de modo sagrado, foi o primeiro sacerdote sob a Lei. Dessa forma, Cristo é apresentado como aquele que reúne em si a realeza e o sacerdócio, cumprindo e superando as figuras do Antigo Testamento.
Essa distinção também se manifesta na comparação entre os Evangelhos de Mateus e São Lucas. Mateus assume explicitamente o propósito de narrar a geração carnal de Cristo, iniciando sua enumeração genealógica por Abraão e seguindo em ordem descendente. Lucas, por sua vez, apresenta Cristo sobretudo como sacerdote que expia os pecados; por isso, não começa com a genealogia, mas a introduz a partir do Batismo de Cristo, quando João testemunha: “Eis aquele que tira os pecados do mundo”. Em Mateus, as gerações simbolizam a assunção dos pecados da humanidade por Cristo; em Lucas, elas significam a abolição desses pecados pelo próprio Senhor, razão pela qual a genealogia é narrada em ordem ascendente.
Dentro dessa genealogia, surge a questão de por que Bersabeia não é mencionada pelo nome, como ocorre com outras mulheres. Isso se explica porque, embora algumas delas tivessem histórias moralmente problemáticas, eram ainda assim reconhecidas por suas virtudes. Bersabeia, porém, foi não apenas cúmplice de adultério, mas também do homicídio de seu marido; por isso, o evangelista opta por não citá-la nominalmente na genealogia do Senhor.
Há ainda uma interpretação mística desses personagens. Davi prefigura Cristo, vencedor de Golias, símbolo do Diabo. Urias, cujo nome significa “Deus é minha luz”, pode representar o Diabo, que desejou ser semelhante ao Altíssimo, ou o próprio povo judaico, que se gloria na luz da Lei. Bersabeia, por sua vez, significa “poço da saciedade”, simbolizando a abundância da graça espiritual. Nesse sentido, a união de Davi com Bersabeia aponta para Cristo que, do trono da majestade do Pai, amou a Igreja, tornou-a bela e a uniu a si como esposa.
Texto bíblico
Evangelho Segundo São Mateus
1, 1-15

1 – Genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão.
2 – Abraão gerou Isaac. Isaac gerou Jacó. Jacó gerou Judá e seus irmãos.
3 – Judá gerou, de Tamar, Farés e Zara. Farés gerou Esron. Esron gerou Arão.
4 – Arão gerou Aminadab. Aminadab gerou Naasson. Naasson gerou Salmon.
5 – Salmon gerou Booz, de Raab. Booz gerou Obed, de Rute. Obed gerou Jessé. Jessé gerou o rei Davi.
6 – O rei Davi gerou Salomão, daquela que fora mulher de Urias.
7 – Salomão gerou Roboão. Roboão gerou Abias. Abias gerou Asa.
8 – Asa gerou Josafá. Josafá gerou Jorão. Jorão gerou Ozias.
9 – Ozias gerou Joatão. Joatão gerou Acaz. Acaz gerou Ezequias.
10 – Ezequias gerou Manassés. Manassés gerou Amon. Amon gerou Josias.
11 – Josias gerou Jeconias e seus irmãos, no cativeiro de Babilônia.
12 – E, depois do cativeiro de Babilônia, Jeconias gerou Salatiel. Salatiel gerou Zorobabel.
13 – Zorobabel gerou Abiud. Abiud gerou Eliacim. Eliacim gerou Azor.
14 – Azor gerou Sadoc. Sadoc gerou Aquim. Aquim gerou Eliud.
15 – Eliud gerou Eleazar. Eleazar gerou Matã. Matã gerou Jacó.